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Negócios da quebrada
Quem são e como trabalham os empreendedores com raízes nas comunidades da periferia de São Paulo
Até pouco tempo atrás, o empreendedor da favela era aquele que abria um boteco, um pequeno salão de cabeleireiro improvisado – era preciso sobreviver. Empreender era uma necessidade. Hoje, as oportunidades nascem de outra semente: a da motivação.
Dos 40 milhões de habitantes de São Paulo, 3,8 milhões moram em comunidades – ou no jargão comum, em favelas. No Rio de Janeiro, chamam de “morro”. Aqui, em São Paulo, de “quebrada”. Deste total, 50% têm um trabalho com carteira assinada.
É a outra metade (sem carteira assinada) que anda provocando uma mudança estrutural na organização econômica das comunidades. São eles que estão fertilizando um espaço que, no passado, chegou a ser visto como a pura infertilidade econômica.
Em linhas gerais, o dinheiro não girava dentro das comunidades – chegava até lá pelas mãos dos assalariados, que ainda não tinham conseguido se mudar. Hoje o cenário é outro.
Há dois anos, 15% dos paulistanos moradores de comunidades tinham a intenção de abrir seu próprio negócio. Entre eles, 51% queriam fazê-lo na “quebrada”. A motivação desse segmento é difusa: não ter chefe e ter uma fonte de renda empata com 19%, seguindo-se a liberdade de horário (13%) e fazer o que se gosta (12%).
Não sabemos, com precisão, quantas pequenas empresas funcionam nas favelas paulistas ou brasileiras. Não sabemos tampouco a ligação entre o empreendedorismo e a fé religiosa, em grupos que prometem a prosperidade individual.
Ninguém sabe – os dados estatísticos sobre esse universo de empreendedores ainda são um mistério. Mesmo assim, esse brotar de empresas é acompanhado por um grupo numeroso de pesquisadores que nos fornece um retrato complexo dessa população urbana que integra a base da pirâmide de renda.
Um deles é Krishna Faria, coordenador nacional de Negócios Sociais do Sebrae, que afirma que o empreendedorismo se espalhou para responder ao poder de compra dos mais pobres, que registrou evidente ascensão. No entanto, já que os empregos não existiam em quantidade para todos, coube aos empreendedores darem um novo impulso ao motor da economia: o consumo.
“Como o emprego formal não poderia atender a todas essas pessoas, o que lhes resta é empreender por necessidade”, diz.
Renato Meirelles, fundador e presidente da Data Popular, tem acompanhado de perto esse movimento. “A favela era um território do desemprego e de empreendedorismo por causa do desemprego”, diz.
UM NEGÓCIO PARA CHAMAR DE NOSSO
Montar uma empresa dentro da favela, tendo como público-alvo os próprios moradores, soa como uma iniciativa óbvia e rentável. Mas esse não é o único alicerce que sustenta essas novas construções. Há também o conforto e o orgulho de protagonizar uma história de sucesso.
Há “a oportunidade de negócio e o conforto de poder trabalhar dentro de sua própria comunidade, o que gera confiança, reconhecimento e mexe com a autoestima”, diz Jerônimo Ramos, superintendente do Santander Microcrédito. O banco abriu uma agência em Paraisópolis, em São Paulo, e duas no Rio, no complexo do Alemão.
É mais ou menos a mesma explicação de Júlia Dias, coordenadora do projeto Visão de Sucesso e responsável pela regional Ceará da Endeavor Brasil. “Uma característica marcante dos empreendedores de comunidades é que são extremamente criativos e muito ambiciosos. Apesar de não terem escolaridade muito boa, não conseguiram ficar presos em um trabalho típico.”
Exemplo disso é Clayton Rodrigo dos Santos, dono da Da.V8, que criou uma marca de bonés e camisetas no Jardim Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo. O empresário conta que já chegaram a bater de madrugada na casa dele pedindo os produtos. “O que mais impulsiona essa habilidade de negócios é conhecer todo mundo na comunidade, de formar uma espécie de ‘rede social’ dentro dela”, afirma Júlia.
E por falar em ‘rede social’, como não notar o uso dessa ferramenta na ampliação dos negócios? Santos se divulga e vende pelo Facebook. A Comunidade do Forró, que movimenta a economia do Jardim São Francisco com eventos semanais, vê na rede social seu principal meio de divulgação. Eles se apropriam dos meios possíveis e fazem deles mais uma origem de renda.
Rudá Ricci, sociólogo, cientista político, e diretor da ONG Instituto Cultiva, em Belo Horizonte, argumenta que o empreendedorismo nas comunidades “já tinha uma base social fácil de trabalhar, para ganhar um consumidor fiel. O que faltava era o dinheiro”.
“Nos últimos dez anos, com a ascensão da classe C, aumento do salário mínimo, oferta de crédito e a facilidade para ter cartão de crédito qualificaram essa forma de comércio”, diz.
E prossegue: “Some-se a tudo isso com o que chamamos de solidariedade automática, que está muito ligada ao afeto, e se cria um mercado dentro das comunidades. Há dez anos começou aumentar a renda e há cinco começou a qualificação deste mercado.”
Esse fenômeno não é uma exclusividade nacional. Em A Riqueza na Base da Pirâmide, C.K.Prahalad mostrou como o microcrédito tem o poder de potencializar novos negócios na Índia e em várias partes do mundo com cenários sociais semelhantes aos do Brasil.
O PERFIL DO EMPRESÁRIO E DA EMPRESA DA QUEBRADA
O reforço da autoestima entre empresários e consumidores das comunidades é hoje o que movimenta mais negócios nas favelas, na percepção de Taciana Abreu, diretora de planejamento da W/Mccann Rio de Janeiro e participante da Incubadora Yunnus de Negócios Sociais no Rio de Janeiro.
“Vemos produtos e serviços do mundo da beleza, da moda e da estética em destaque nas iniciativas vindas de empreendedores das comunidades”, diz Taciana.
Por aqui, em São Paulo, o padrão se repete, a exemplo da agência de modelos Ayo Eventos, criada por Marleyse Moraes, de 23 anos, da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. Carlúcio Ferreira Araújo, de 28 anos, já tem dois salões de beleza no Jardim Ibirapuera, em São Paulo – e continua a crescer.
Não é por acaso que a maior parte desses empreendedores são jovens – ou estão cercados deles. Taciana explica que o conhecimento empírico acaba mais forte que o teórico quando observado o perfil dos empresários da favela. A despeito do aumento da escolaridade, eles não esperam toda a gestação e planejamento do negócio para dar o pontapé inicial.
“Esses indivíduos nasceram executando, então o planejamento é menor e a prototipagem é constante”, diz. Com uma ideia na cabeça e os recursos mínimos nas mãos eles partem para o empreendedorismo.
Por um lado, há uma desvantagem: falta planejamento e, com isso, os erros são mais frequentes. No entanto, os desvios de rota são mais baratos quando a estrutura não começa grande. “É um risco adicional que eles assumem”, afirma Taciana.
Taciana não acredita que esse movimento calcado na autoafirmação possa isolar a favela da cidade – ou o morro do asfalto. A exemplo do que vem acontecendo no Rio de Janeiro, as trocas vêm se intensificando. A executiva lembra, por exemplo, do boom de restaurantes japoneses na favela da Rocinha – na outra mão, empreendimentos como o Saladorama, também do Rio de Janeiro, está levando comida saudável e acessível também para fora do morro.
FINANCIAR O NEGÓCIO DA QUEBRADA
Para essa multidão de pequenos empresários, o financiamento é um evidente problema, que dificilmente encontra solução.
Mirando esse problema, Marcus Vinicius Faustini, autor dos livros Guia Afetivo da Periferia, criou, no Rio, a Agência de Redes para Juventude, que ajuda a transformar ideias de jovens em projetos que melhorem as comunidades em que vivem. Os beneficiados recebem R$ 10 mil para seus projetos.
Há 17 anos Celso Athayde, no Rio, fundou a Cufa (Central Única de Favelas) na Cidade de Deus, com a vocação de coletar a financiar projetos nessas comunidades. Ele criou também o Favela Holding, em que associou 11 empresas num mecanismo de financiamento que deu em empresas como Favela Vai Voando (venda de passagens aéreas), Favela Objetiva (produção editorial) ou Cadeia Produtiva (produção de móveis). Athayde também é coautor dos livros Um País chamado favela, com Renato Meirelles.
Seu caso é exemplar. A mãe queria que ele fosse borracheiro. E ele hoje tem um filho que estuda economia em Londres. Acontece também com o empreendedor: ele quer ver os filhos na faculdade. José Pereira e Aparecida Pereira, donos dos Mercados Pereira, no Heliópolis, são analfabetos – mas o filho estudou administração de empresas e ajuda os pais no negócio.
A escolaridade na favela, por sinal, também é um fermento para esse contingente de empreendedores. Segundo números do Data Popular, em 2003, eram 14% dos empresários das comunidades não tinham escolaridade. Outros 70% tinham alcançado o ensino fundamental.
Em 2013, apenas 8% não tinham escolaridade e a massa de pessoas com o ensino médio já representava 27% do bolo – e esse resultado vai melhorando conforme diminui a idade dos pesquisados. A mudança de comportamento está clara e já foi anunciada em diversas pesquisas: com algum dinheiro a mais no bolso, a classe C quer estudar. Estudando, eles vão mais longe, tanto como empregados como com empreendedores.
FORMALIZAÇÃO EM PROCESSO
Luciana Aguiar, sócia-diretora da Plano CDE, estuda o comportamento econômico da população mais pobre. Ela diz que sempre existiram pessoas que trabalharam por conta própria – 30% das classes D e E e 20% da classe C. Mas era a informalidade dos bicos. O empreendedorismo é outra coisa bem diferente. Nos últimos pouco mais de quatro anos, em 60 mil atendimentos, foram formalizados mais de 6 mil novos pequenos empresários.
A Constituição de 1988 deu um tratamento diferenciado às micro e pequenas empresas, ao mesmo tempo em que abria as portas à inclusão social. As duas pontas se juntaram para esse terreno fértil.
Dentro e fora das comunidades os empreendedores encontram, ao lado do aumento do poder de compra, um ambiente legal que surgiu com o Simples Nacional (2006) e com o MEI (microempreendedor individual). “Diminuíram sensivelmente os ônus tributários para as micro e pequenas empresas”, diz o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos.
Tudo isso não significa que o incipiente, mas progressivo espírito empreendedor nas favelas esteja totalmente a salvo das ciclotimias da economia.
“A possibilidade desta novidade fracassar em 2015 é grande”, afirma Rudá Ricci, ao se referir aos rigores do ajuste fiscal conduzido pelo ministro Joaquim Levy e ao aumento da taxa de juros. “O novo mercado criado pelo empreendedorismo popular ainda está fincando seus alicerces.”
Leia as entrevistas completas com Carla Panisset e Marilia de Castro.
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