Comunidade do Forró gera renda na Zona Leste

As festas semanais aumentam em até 70% faturamento dos comerciantes do Jardim São Francisco


Tudo começou no Bar do Gil, que depois passou a revezar com o Bar do Dedé como sede das festas semanais. O fornecimento de pães para o churrasco sempre fica por conta da Padaria Tânia. O Dog da Neide é a opção para beliscar entre uma dança e outra. Já no Rei da Pizza, conveniência extra para quem dá uma pausa na maratona de forró eletrônico: basta ligar que a redonda chega.

E no meio de tudo isso, há um líder comunitário que usa o Facebook para divulgar os eventos, e assim, consegue atrair, em média, 800 pessoas por festa. E que pode chegar a picos de 2 mil, dependendo da atração da noite – caso dos artistas locais Forró Muleke ou do ex-pedreiro Nelson Nascimento, hoje o “Rei da Pisadinha”, que agora fazem sucesso nacional com ajuda da internet e redes sociais.

Esse é o panorama da “Comunidade do Forró”, evento criado há quase cinco anos por um grupo de comerciantes do Jardim São Francisco, extremo leste da capital paulista. Os seis comerciantes da região unem forças e dinheiro para levantar o evento. Com a festa, o lucro cresce e volta para o caixa do evento, para os empreendedores e para projetos sociais locais.

A comunidade, parte do distrito São Rafael-Subprefeitura São Mateus, surgiu nos anos 80 e hoje tem 70 mil moradores.

Mas, apesar de ser o terceiro maior assentamento em condições precárias de São Paulo segundo dados da Cobrape (Companhia Brasileira de Projetos e Empreendimentos), o Jardim São Francisco não possui a mesma visibilidade de Paraisópolis ou Heliópolis, as duas maiores comunidades da cidade.

“Era preciso chamar a atenção para nossa comunidade e seus problemas. Ou, no mínimo, criar uma opção de lazer, pois aqui não tinha nenhuma. Mas também precisava aumentar a renda local e gerar melhorias por aqui”, diz Jerônimo Barreto da Silva, o líder comunitário que reuniu os comerciantes para criar a Comunidade do Forró - da qual também é fotógrafo e cinegrafista.

PEQUENOS SHOWS VIRAM MEGAEVENTOS

E a iniciativa nada mais é do que a profissionalização de um evento comum nos fins de semana das periferias paulistanas – inclusive no próprio Jardim São Francisco: “pocket-shows” de artistas populares de forró eletrônico, realizados nos bairros de um jeito muito informal, no estilo faça-você-mesmo.

Cartazes colados nos estabelecimentos anunciam as atrações, geralmente um músico equipado apenas com teclado, bateria eletrônica ou sintetizadores. Alguns trazem até duplas de dançarinas ou dançarinos, para incrementar o show com suas coreografias aeróbicas e sensuais.

Mas... No caso do Jardim São Francisco, com a união dos comerciantes, os shows isolados que não reuniam mais de 50 pessoas se transformaram em um “megaevento”, realizado infalivelmente nas noites de sexta, sábado e domingo.

Os eventos, por vezes, chegam a tomar as ruas da comunidade. Além de transformar a rotina semanal dos moradores, a “Comunidade do Forró” faz a economia local girar.

As atrações são diferentes a cada semana – ou dia – e os estoques são abastecidos para receber clientes que pagam apenas pelo que consomem nas festas. Nelas, som e iluminação “de balada” só aumentam a repercussão a cada ano de evento.

Atraídos pelo boca-a-boca, participantes de bairros do entorno já viraram habitués. E o corredor de trólebus Jabaquara-São Mateus, que atravessa o ABC Paulista, facilita o acesso do público vindo de Santo André, São Bernardo do Campo ou Diadema.

DA ZONA LESTE PARA O MUNDO?

Com tudo isso, as vendas mornas de segunda a sexta sobem de 50% a 70% para os comerciantes nas noites de evento. “Em duas horas eu vendo praticamente o movimento da semana toda”, afirma Gilberto Conceição Souza, o ex-entregador de gás que virou dono do bar que leva seu nome.

Já Lourinaldo Luiz Silva, um ex-pizzaiolo que abriu sua própria pizzaria, diz que a ideia de atender os pedidos do público da festa fez as vendas crescerem, em média, 30% por noite. “Em dia normal, eu vendo umas 50, 60 pizzas. Mas nesses dias às vezes passa de 80”, afirma.

Os lucros do evento não servem só para fermentar o caixa dos pequenos empreendimentos ou reinvestir.

Parte do dinheiro é revertida em festas e projetos sociais voltados a crianças e adolescentes da comunidade. Como a festa de Carnaval, já postada por Barreto na página do Jardim São Francisco no Facebook. Esse aumento da visibilidade, na opinião do líder comunitário, colaborou para conquistas como a construção de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) na avenida Jacu Pêssego.

Agora, o próximo passo é formalizar a “Comunidade do Forró” como uma grande empresa de eventos e de agenciamento de artistas do gênero. “Não queremos só aumentar a renda dos comerciantes e melhorar a comunidade. Queremos trabalhar para continuar a lançar talentos locais, para que ‘virem’ nacionais e até internacionais”, sonha Barreto. Te cuida, Aviões do Forró.

Por Karina Lignelli