“Vai buscar o teu objetivo"

José Pereira Filho e Maria Aparecida Pereira começaram a partir da tradicional migração do Nordeste para o Sudeste em busca de melhores oportunidades, mas o resultado foi a iniciativa empreendedora e o sucesso como donos de mercadinhos no Heliópolis


Quando desembarcou em São Paulo definitivamente, o baiano José Pereira Filho, de 63 anos, já era empreendedor.

Em Paulo Afonso, na Bahia, ele já dividia com sua mulher, Maria Aparecida Pereira, de 53 anos, as responsabilidades de um comércio rural. Na roça, plantava cebolas, legumes e algumas frutas – tudo era vendido, garantindo o sustento da família que, até então, tinha quatro pessoas.

Sua casa, em Paulo Afonso, estava exatamente na região que foi desapropriada e inundada para o grande complexo hidrelétrico de Paulo Afonso, cuja construção levou 30 anos e hoje gera 4.279,6 megawatts. Como muitos de seus conterrâneos, decidiu vir para São Paulo em meados da década 1970, em busca de melhores oportunidades.

Pereira e dona Cida encontraram seu lugar na periferia da Zona Sul da cidade e, em São Paulo, o empreendedorismo aconteceu por oportunidade. “Eu era balconista. Veio um ‘alemão’ da Coca-cola e me ofereceu uma caixa de Coca-cola litro. Eu comprei. Depois, ele voltou e ofereceu uma caixa de cerveja Brahma e eu também comprei. Eu tinha um freezer, comecei a vender”, conta Pereira.

O primeiro mercado tinha 12 metros quadrados – aos poucos, Pereira e dona Cida foram comprando os imóveis em volta e o negócio foi crescendo. No Heliópolis, onde moram hoje e não saem “de jeito nenhum”, já construíram três mercadinhos – um para eles e um para cada filho.

Nem toda prole veio com o tino para o negócio. Um dos filhos “não cuidou direito do mercado”, conta dona Cida. O negócio acabou falindo e o imóvel está alugado. O outro, por sua vez, mantém o seu mercado na Estrada das Lágrimas em plena operação. O filho caçula, deficiente, é totalmente dependente do casal.

Foi com o nascimento dele que dona Cida deixou os estudos. Com os oito meses nos quais frequentou a escola em toda a sua vida, aprendeu a “assinar um cheque” e “fazer uma coisinha ou outra”. Mas na Internet pesquisa preços, faz pedidos e ainda se informa sobre o noticiário pelos vídeos que circulam na rede.

Pereira, que é analfabeto, é bom de negociar preço e de fazer conta. Dona Cida é quem cuida da administração do negócio, dos cinco funcionários e da gestão de produtos. “Não compensa fazer estoque, vamos comprando conforme vai precisando”, diz.

Dona Cida queria ter feito “pelo menos um curso de Administração” para ajudar nos negócios, mas aprendeu a se virar com o que tem – e com o que o filho ensina. O filho que cuida do outro mercado da família fez faculdade de Administração de Empresas e carrega consigo a responsabilidade de realizar o que não foi possível para os pais.

Hoje, dona Cida não aconselha ninguém a abrir um mercadinho. Para ela, esse é o pior momento em volume de vendas desde que abriram o negócio. “Já não dá mais para fazer um dinheirinho como antes”, lamenta.

Fácil não é, mas não falta iniciativa dessa dupla. “Vai buscar o teu objetivo que todo mundo tem direito de ser feliz”, diz Pereira.

Por Bárbara Ladeia