A favela na passarela

Modelo abre agência para promover meninas da Brasilândia e, claro, ganhar dinheiro


A conquista do quarto lugar da mais bela garota da Cufa (Central Única das Favelas), em 2012, mudou a vida da modelo Marleyse Moraes, 23, moradora da Brasilândia, zona Norte de São Paulo.

A moça concorreu com outras 832 meninas de comunidades brasileiras, em um evento com direito à participação no programa do Luciano Hulk.

Só que, em vez de aproveitar o momento de fama e bater na porta das agências para tentar a participação em desfiles, fotos para revistas e comerciais de TV, Marleyse preferiu investir na ideia de ter a sua própria agência de modelos.

E tem dado certo. A modelo já conta com dezenas de meninas cadastradas, com participações em desfiles, feiras e eventos.

“Quando voltei para São Paulo, após o final do concurso da Cufa, senti que queria ser mais do que uma modelo. Queria orientar as meninas e abrir caminhos para que elas pudessem entrar para o mercado de trabalho de uma maneira mais fácil.”

Por experiência própria, Marleyse sabe como é difícil conquistar um espaço no concorrido mercado de modelos. “As agências, antes de qualquer contato pessoal, pedem que as moças apresentem um book de fotos, que não sai por menos de R$ 1,2 mil”, diz. “As meninas, com grande potencial, não tem a menor condição de pagar esse valor. Fora isso, diz ela, existe a questão do preconceito, ainda muito forte neste mercado”.

E acrescenta: “É muito difícil aparecer trabalho para as meninas das comunidades que, muitas vezes, nem possuem endereço. Eu mesma moro no meio de uma rua, só que o número da minha casa é 16”.

Surgiu assim a ideia de montar a Ayo Eventos, que hoje já conta com 170 meninas cadastradas pelo Facebook. Ayo significa alegria no idioma yorubá, falado na África.

Extrovertida e bem fluente, Marleyse é aquele tipo de jovem empreendedora que sabe muito bem o que quer e, sem medo, traça planos para crescer.

A agência funciona em um cantinho da sala de sua casa, que é alugada. Por meio da internet, ela se informa sobre eventos, corre atrás dos organizadores e tenta achar trabalho para as suas meninas.

No ano passado, em comemoração ao dia da Consciência Negra, a sua agência ajudou a Cufa a preparar um evento na Casa das Caldeiras. Marleyse conseguiu reunir 25 garotas da Brasilândia para um desfile.

Aproveitou o dia também para chamar a atenção do público para os produtos e serviços de empreendedores da comunidade. “Divulgamos a tia do salgado, a tia da tapioca”, conta ela, empolgadíssima com o trabalho que desenvolve.

A Ayo também conseguiu trabalho para modelos em uma feira de tecnologia para a indústria de sorvetes e ajudou ainda a organizar, por dois anos, concursos para a escolha da musa da Brasilândia. “E o evento deste ano, o terceiro, será maior ainda”, diz.

O seu maior desafio, diz, é vencer preconceitos. “Às vezes, as pessoas me ligam e parecem muito interessadas no trabalho das meninas, mas quando eu digo que elas são da Brasilândia, o que eu escuto do outro lado da linha é ‘ah! este não é o perfil que estamos buscando’”.

Enquanto aguarda o momento certo para ter um local mais adequado para operar sua agência, ela faz alguns trabalhos de modelo. É modelo da Muene, empresa especializada em cosméticos para peles negras.

Sua agência, diz ela, é prioridade, mais do que os trabalhos que aparecem como modelo. Agora ela está preparando um site que vai servir de orientação para as meninas sobre maquiagem e como elas devem se vestir para as mais diferentes ocasiões. Ela também quer dar dicas de moda.

Se o modo de ser e de vestir de Marleyse podem dar algumas pistas, com certeza, as suas meninas, como ela mesma diz, vão se dar muitíssimo bem.

Por Fátima Fernandes